terça-feira, 30 de setembro de 2008

Acabadinho de fazer


Os livros, assim como tudo o que escreve Miguel Esteves Cardoso, provocam-me um misto de curiosidade e de alegria. A curiosidade vale o que vale: esbate-se nos primeiros parágrafos. A alegria é a confirmação do prazer que os textos do MEC me proporcionam.
Começou por revelar sons e atmosferas musicais até então desconhecidos em Portugal. Depois revelou a verdadeira face dos portugueses. A Causa das Coisas e As Minhas Aventuras na República Portuguesa, são retratos verdadeiros de um país e de um povo que Miguel interpreta transformando os desmazelos e agruras em pedaços de requintada prosa.
Agora está aí este Em Portugal não se Come Mal. No fim do prefácio está escarrapachada esta frase a que eu chamo máxima: As alegrias, para serem grandes, não precisam de não ser pequeninas: bastam-nos que sejam nossas.
É esta apologia da autenticidade que faz de Miguel Esteves Cardoso um grande prosador, sem precisar de ser chato ou integrado em correntes literárias, por muito pequeninas que sejam.
Para mim, este livro é mais uma confirmação. E o prazer que me dá lê-lo...

Título:Em Portugal não se Come Mal
Autor: Miguel estreves Cardoso
435 páginas
Capa: As capas da Assírio & Alvim não são, quase na generalidade, assinadas. Muitas têm pinturas de Ilda David. Mas todas são tratadas pelo próprio editor, o escultor Manuel Rosa.
Esta capa é muito bonita. Retrata a mulher de MEC, a Maria João, abraçando viçosas couves, com uma vistosa biblioteca clássica em fundo.
Este retrato é  também um sinal de amor e gratidão. Tudo muito bonito. portanto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

LUX - 10 anos


Já passaram 10 anos. O Lux começou quando a Expo'98 estava a acabar. A Expo foi a grande festa do regime democrático. Não podemos viver sempre em festa, mas podemos tentar. Este parece ser o lema dos proprietários do lendário Frágil, no Bairro Alto, agora rendidos a outra geografia lisboeta. John Malkovich associou-se aos seus amigos portugueses e trouxe logo o mundo todo para aquele espaço de Santa Apolónia. Por ali passam muitos sons do futuro.
Logo à noite vamos até lá apagar as dez velas, com o Manuel Reis.
Os tempos não estão para grandes festas, mas é bom saber que há um sítio onde se faz um esforço para contrariar o pessimismo reinante.
Fotografia Helena Vasconcelos

domingo, 28 de setembro de 2008

Voz dos pacientes

Aos domingos, as opiniões dos pacientes que vão chegando via e-mail.

It's a sony
- As praxes são uma maçada. Ao meu filho, no ano passado, partiram os óculos. Participei o facto à direcção da faculdade. Fui evasivamente afastada de qualquer resposta ou atitude. Parece que tudo isto é natural. Fez bem em denunciar os pais que estupidamente ainda registam esta delinquência em vídeo. Destaco a decisão do Ministro Mariano Gago que afastou muitos alunos desta prática estupidificante.
Maria de Jesus Moita

Agitar as águas - Concordo com a ideia de que Santana Lopes pode estimular o debate autárquico em Setúbal. Mas acho fraca hipótese. Tem mesmo que ser ele? Dores Meira está segura pelo PCP. O PS é a terceira força. O PSD está bem colocado para ganhar. Enfim, vai ser uma trapalhada que poderá levar Santana a dar nas vistas. Setúbal merecia melhor. Lisboa também merece mais do que Santana Lopes. Que tal ficar quieto?
Mário Alcântara

sábado, 27 de setembro de 2008

Born in USA


O debate prometia. Não cumpriu. A prestação dos candidatos não passou de satisfatória. Os americanos, principais interessados (a gente às vezes esquece-se disso), preferiram Obama, mas sem entusiasmos. Uma coisa é certa: Haja o que houver, nada será como Bush. Exceptuando o caso Palin, que passou de carne fresca* a osso duro de roer, a política nos States é capaz de se tornar mais responsável.
A ver vamos.

*Esta da "carne fresca" não é ordinarice minha. Foi o que toda gente pensou e disse: a mulher até é gira. Agora transformou-se em bruxa. Com verrruga no queixo e tudo. É o que dá quando se escolhe o que nos surpreende a vista. Quem vê caras...

Paul Newman (1925-2008)


A notícia não é inesperada. Newman estava já muito doente. Teve tempo para decidir onde queria morrer - em casa. Morreu agora.
Aos filmes, bastava a sua presença. Um grande actor é assim: puxa o filme para a frente, mesmo que a história ande para ali a patinar. Começam a faltar os grandes actores. Nem se dá por eles. Agora tudo começa no "pequeno ecran". É uma desgraça. E uma desgraça nunca vem só: não há histórias, nem talentos. Só disputas comerciais balofas.
Mas a história vai mudar um dia. Tudo muda.
O "pequeno ecran" que se cuide.
Viva o Cinema!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O respeitinho é muito bonito


Não conheço esta Laura (não sei se alguém a conhece), nem sempre concordo com o que diz, mas parece que nos conhecemos há muito.
Engraçado.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Agitar as águas


Começa a ser levada muito a sério a candidatura de Santana Lopes à autarquia de Setúbal. A possibilidade de sucesso em Lisboa aparenta-se pouco provável. As margens do Sado precisam de agitação. A entrada de Santana em cena vai agitar as águas. É já tempo de os partidos políticos colocarem a cidade nos palanques da política nacional. Se o BE chamar Fernando Rosas e o PS convencer Vitor Ramalho, a coisa compõe-se. Talvez assim o PCP reedite a hipótese Ruben de Carvalho, para se ver livre da ex-dirigente da ridícula Associação de Pioneiros de Portugal.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Admirável mundo novo


Uma colega assegura que o moço era "alegre e sociável". Até tinha amigos e vivia sozinho com um adorável gatinho. Ninguém percebe o que lhe passou pela cabeça. A primeira página do Público pergunta "como foi possível no país modelo?".
Pelos vistos ninguém se apercebeu, ou não levou a sério, as incursões do rapazola na internet. Estes territórios exemplares estão expostos, até por questões de acelerado desenvolvimento, a estas novas funcionalidades "amadas" pela juventude. Para o bem e para o mal.
Os países modelo já não são o que eram.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Caminhando e cantando


Os portugueses passam a vida a tentar iludir a depressão. Anti-depressivos e ansiolíticos consomem-se como pãezinhos quentes, segundo notícia de primeira página no Público de hoje. Provavelmente a culpa é da eterna crise que sempre nos afastou dos patamares mais atractivos, e que agora, com roupagem internacional, permite que até já se fale em duvidoso futuro. Também a arrepiante "canção nacional" não ajuda nada. Parece que gostamos de cantar a desgraça como graça. Esmorecemos com a alegria dos outros. Estar alegre, em Portugal, foi, durante muitos anos, pecado não redimível. Não discutimos Deus nem a Pátria. Fica-nos o Fado. Triste taluda.
Tudo isto é triste num país onde há quem insista em contradizer a fatalidade da depressão permanente. Ao invés da lamúria reinante, temos por cá do bom e do melhor. Sabemos fazer agasalhos como ninguém. Andamos bem calçados. Produzimos bom café. Bons cosméticos. Fornecemos equipamentos desportivos de elevadíssima qualidade. Criámos facilidades tecnológicas primeiro que toda a gente. Temos bons designers. Bons artistas. Bons escritores. Gente esforçada e com vontade de fazer pela vida. Mas assim de repente não parece. Ficamos pelo lamento, essa clássica manifestação cultural nacional.
Provavelmente falta-nos comunicar entre nós. É a falar que a gente se entende. Mas falar, nos dias que correm, é comunicar com critério, percebendo a utilidade que as nossas vontades trazem à comunidade. Portugal não é uma marca. Não se promove como um sabonete.
São políticas acertadas que estimulam o crescimento dos países.
É a política que estabelece as regras do desenvolvimento.
O desenvolvimento teremos de ser nós a fazê-lo, com atitudes.
Se calhar têm faltado as regras.
Seria melhor que tomássemos atitudes positivas em vez de anti-depressivos.
Mas isso não está à venda nas farmácias.
Imagem Balthus

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

it's a sony

Estamos em plena época de praxes. Os caloiros andam em bolandas pela cidade às ordens dos "veteranos". Os rituais são de um avassalador bom gosto. E ficamos descansados porque para o ano são estes ultrajados que vão reduzir a pó os colegas vindouros. Tudo isto é lindo. Mas há uma novidade mais linda ainda: os pais das rastejantes criaturas andam de sony em punho registando a humilhação para a posteridade.
Esta gente rasteja uma vida inteira. E parece que gosta.

Receituário


Apareça na festa de aniversário. É mesmo aqui.

domingo, 21 de setembro de 2008

Coligação de contrários


O cronista do DN Alberto Gonçalves argumenta, em caixa, na sua habitual crónica dos domingos, que "é impossível não apreciar a reprimenda de Manuel Alegre aos meninos da JS". Até aprecio o estilo afoito das opiniões de Alberto Gonçalves, mas por mais voltas em que envolva o miolo, não consigo encontrar as razões de não se poder estar em desacordo com Alegre. A reprimenda de que se fala deve-se às opiniões que os jovens socialistas têm sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Alegre, bardo de outros tempos, caçador, frequentador de touradas e outras manifestações de orgulho viril, não aprecia por aí além as "mariquices" dos seus jovens companheiros de partido, classificando-as como "temas da moda". Os disparates a que Alegre nos habituou têm agora sucesso junto de pessoas que não se juntam ao poeta nem para beber um cafézinho. Porquê? Porque dá jeito. A gente finge estar de acordo com o "renascentista" Alegre contra a contemporaneidade, essa devassidão.

O tema em discussão não é de modas. Todos os problemas devem ser abordados quando são problema. Este é só mais um entre outros que atormentam a sociedade portuguesa. Quem vive a chatice é que sabe a sua dimensão. Provavelmente Manuel Alegre tem outras chatices que acha prioritárias. É normal que se preocupe com elas. Mas desmerecer assim em quem afronta o seu conservadorismo, não lhe fica bem. Faz-me sim sentir bem por não ter sido eleito Presidente da República de todos os portugueses.
Alberto Gonçalves completa a opinião descrevendo a atitude do poeta de demagógica, e reconhece que as ideias de Alegre para resolver as "questões sociais" até levariam ao seu agravamento.
Estranha simpatia, esta.

sábado, 20 de setembro de 2008

Deambulatório

Ana de Amsterdam voltou. O rapaz já nasceu e a mãe veio aliviar-nos as saudades. Na primeira postagem, depois desta longa ausência, queixa-se de enfado na blogosfera, com destaque para os blogues femininos. De acordo com a crescente saturação. Mas considero o cansaço transversal ao género dos escribas. De qualquer modo confesso que a coisa ainda entretém. Partilho aqui o meu interesse por três blogues que muito recentemente me iluminaram a janela do Mac. Todos aparentemente femininos: Maria dos Trapos, Responsabilidade e Juízo e m catarse.
Apareçam por lá.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quem casa...

Há quem ache que nem toda a gente deve casar. Também há quem ache que poucos se devem divorciar. Isto de haver quem ache que deve haver legislação conforme os seus intentos morais ou ideológicos já tresanda. Não é por decreto que se decide a vida dos outros. Mas não há dúvida que, numa sociedade onde se vive democraticamente, as regras devem respeitar as diferenças. Ao fim a e ao cabo todos pagamos impostos. Todos temos princípios morais. Todos enfrentamos as dificuldades dessa sociedade que não hesita em imolar-nos quando parecemos diferentes. Mas somos diferentes de quem e de quê? Quem detém a Razão? Quem deve julgar a diferença do outro?
Quem é que está mandatado para ditar as regras do disparate?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Receituário


João Esteves de Oliveira Galeria Arte Moderna e Contemporânea. Rua Ivens, 38, Lisboa

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Honra e respeito


Ramalho Eanes recusou os rectroactivos acumulados da reforma como general. A maquia ultrapassa um milhão de euros. O acumular de benesses por parte de quem não vale um grama do que pesa, afronta esta abnegação. Ainda há quem não faça da vida uma permanente aposta no  euromilhões. Ainda há quem chame honra a essa coisa fora de moda a que chamamos Atitudes.
São precisamente estas atitudes que ficam como exemplos morais, espero.
Este texto sou eu a tirar o chapéu em sinal de respeito.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nós por cá todos bem?

Dos EUA vem um aviso: o Estado não tem nada que pagar a despesa de um banco privado, mesmo que esse Banco tenha pendurado na parede uma placa com os dizeres "Lehman Brothers". Esta novidade pode trazer outros sustos para os financeiros de todo o mundo.
As coisas não estão nada bem. Para ninguém.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Novo Arrastão


O Arrastão mudou de areal e arrastou para o toldo mais dois frequentadores: Pedro Sales e Pedro Vieira.
Vale a pena ir lá dar um mergulho.

domingo, 14 de setembro de 2008

Sem mais comentários



O João já disse tudo. Eu limito-me a repeti-lo:
Cristiano Ronaldo quis ir à Madeira, sua terra natal, para receber uma "bota de ouro". Parece que tencionava homenagear, a título póstumo, o pai. No aeroporto, ignorou os compatriotas que o foram saudar à chegada. Ontem, à porta do hotel onde foi coroado como tal, o "bota de ouro" fez esperar em vão umas dezenas de madeirenses orgulhosos por o pé que calça a "bota" ser um dos seus. Ilusão deles. Mais uma vez, Ronaldo só estava disponível para o que o esperava lá dentro: o sr. Horácio Roque e as televisões. Babaram-se uns para os outros porque, naturalmente, estão muito bem uns para os outros. Ex-pobre (e não há nada pior do que um "ex" qualquer coisa), imaturo e ignorante, o "bota de ouro" não passa de um deslumbrado com talento nas pernas. Nas três pernas, a avaliar pelo galinheiro que cacareja permanentemente atrás dele nas revistas da "especialidade". De resto, o dinheiro encarregou-se de destruir o menino que jogava na rua com os vizinhos cuja alegria se quis manifestar junto dele e que ele, moldado pelo espectáculo em que se tornou, se recusou a partilhar. O "bota de ouro" é o expoente de uma certa alarvidade "social" que veio com a democracia. Uma alarvidade que brilha tanto ou mais do que o ouro da bota. E que costuma acabar tão surpreendentemente como começa.
João Gonçalves | Portugal dos pequeninos

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A voz dos pacientes

As opiniões dos pacientes do B'O deixaram de ficar registadas no sítio habitual. Todos os comentários ao que aqui se publica devem ser enviados para o endereço de e-mail. Quem quiser participar nas cirurgias... mãozinhas ao teclado. Depois logo se vê.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

7 anos que mudaram o mundo


O fundamentalismo religioso tem coisas destas.
É preciso não esquecer.

Deus, ministro da guerra



A propósito do post do passado dia 2, intitulado "Mudanças", foram-me devolvidos repreensivos reparos, via e-mail. Pretendia (e pensei que se percebia. Problema meu) fazer ironia com o facto de a senhora que MacCain foi buscar ao Alasca, ter entrado na dança falando de mudança. A mudança que Palin apregoa, a existir, só pode ser para pior. A mulher encravou com dividas uma minúscula povoação que governou e que até então vivia na pacatez financeira. Aumentou impostos, já no Alasca, quando não fazia sentido. Pertenceu, durante dez anos, a um movimento independentista. É criacionista convicta e inflamada, e pretende que esta lamentável interpretação religiosa seja imposta nas escolas.
Não estamos a falar de uma candidata a presidente de uma junta regional. Falamos de alguém que quererá impor estas parvoíces num país que influencia o mundo. Falamos de opções perigosas que colocam em risco liberdades individuais. Corremos mesmo o risco de ver a criatura tomar posse como presidente dos Estados Unidos da América.

Quanto às questões morais, bem, aí não há nada a acrescentar. Se vamos olhar por esse canudo, e tendo em conta que num país civilizado e com interesse para o mundo, as opções religiosas estão ao nível das comunidades que se sujeitam aos mais retrógados fundamentalismos, chegamos a conclusões pouco animadoras.
MacCain confunde uma nação com um exército. Palin acha que Deus é um general em exercício.
Nada de bom se espera daquela parelha de cromos.
Esperemos que os americanos tenham tino.

Ver a trapalhada aqui

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Alternância sem alternativa


Frank-Walter Steinmeier é o actual ministro dos exteriores da Alemanha. Cargo importante, portanto.
Angela Merkel é quem manda lá na loja.
Como é que o homem se vai impor como alternativa à patroa?
Vai rejeitar a sua própria participação política?
Há coisas que não se percebem.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A casa de Verão de Manuela

Mário Crespo chamou Menezes aos estúdios da SIC-N para que o autarca comentasse a intervenção da líder no exame final da Universidade de Verão do PSD. Menezes parecia possesso. Nada do que a senhora disse está em conformidade com o que o partido deve reivindicar. Sócrates também comentou as tiradas de Manuela. Esforço escusado. Menezes trata melhor do assunto.
Luís Filipe Menezes regressou a Gaia e é agora um militante de base, mas adoptou o vocabulário da oposição à liderança do seu partido como gente grande. Manuela Ferreira Leite vai ver-se em palpos de aranha para fazer as limpezas de Verão. Com amigos assim, os inimigos até podem ir tomar café lá a casa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Novas oportunidades

Manuela Ferreira Leite falou. O que disse não aqueceu nem arrefeceu. Adversários políticos continuam sem assunto. Contestatários internos não encontram motivos de aproximação: este casamento não procria.
Por agora nada a acrescentar. Novas oportunidades surgirão.
A vida política continua como ontem.

domingo, 7 de setembro de 2008

Os detectives de Bolaño


Roberto Bolaño escreveu um romance extraordinário. Este é provavelmente um dos mais deslumbrantes livros publicados este ano em Portugal. "Os Detectives Selvagens" é uma viagem pelo mundo de quem vagueia pela Literatura. As personagens deste livro são escritores e aprendizes do ofício. Aqui se passeiam as angústias, as desilusões e as alegrias do acto criativo. Tudo em verdadeiro desalinho. O humor é cruel e requintado. As vivências que nos prendem página a página estão encharcadas de sentimentos pouco comuns mas fascinantes.
Uma obra notável.
Há, contudo, uma prestação negativa por parte da editora portuguesa, a Teorema, que não pode deixar de ser assinalada. A tradução aparenta problemas. As gralhas abundam. A mancha de texto quase preenche a página, ameaçando esconder-se na dobra do livro. Não existe, portanto, a elegância gráfica que um trabalho literário desta qualidade merecia. Fica a nota de apreço por finalmente se ver publicado em Portugal um dos textos mais brilhantes da Literatura contemporânea da América Latina.

Titulo Os Detectives Selvagens
Autor Roberto Bolaño
Tradução de
Miranda das Neves
Revisão de
José Costa
Edição Teorema
512 páginas
Preço
25,00 euros

sábado, 6 de setembro de 2008

Autarcas modelo

Os autarcas do Barreiro e do Seixal deixaram escapar milhões de euros destinados a melhorias nos concelhos que dirigem. A uma candidatura - QREN: Quadro de Referência Estratégico Nacional -, responderam no último dia aprazado já com o limite horário ultrapassado. É evidente que o pedido não foi aceite. Regras são regras e são iguais para todos.
A estúpida desculpa ainda os enterra mais: parece que o sistema informático não deu respostas atempadamente.
Quando se fala de autarcas de um partido que não reconhece esforços individuais, devem-se atribuir as culpas a quem? Ao partido, evidentemente. Se os presidentes dos executivos do Seixal e do Barreiro tivessem o direito de decidir, era natural que perante esta inabilidade escandalosa se demitissem. Revelariam dignidade e responsabilidade política. Mas para isso teriam de abdicar daquela religião a que chamam ideologia. Assim, será o partido, entidade abstracta que paira sobre as militâncias colectivas, que irá decidir... se decidir alguma coisa. Os responsáveis directos limitam-se a fazer a triste figura de quem cometeu um erro numa actividade do infantário.
Já agora: por favor não nos venham atazanar mais com aquela tanga dos "autarcas modelo do PCP".
Tenham vergonha.

Democracia à angolana

Observadores europeus dizem que eleições são um desastre. Os dirigentes angolanos asseguram que existem apenas uns erros de funcionamento. Os governantes são capazes de ter razão: com eleições de dezasseis em dezasseis anos, é natural que a falta de prática provoque alguns problemas.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Boa companhia


O DN oferece-nos hoje o último livro desta muito interessante colecção. Passaram o Verão nisto. Por aqui andaram alguns dos maiores autores de sempre. Foram trinta livrinhos, ao todo. As traduções são assinadas por quem sabe da poda. Não há gralhas. A apresentação gráfica é honesta. Para o DN e para a Quasi, editora que produziu a colecção, vão daqui os meus cumprimentos por este desempenho.
O livro de hoje é de Rainer Maria Rilke - "Cartas a um Jovem Poeta".
Por agora acabou-se o fornecimento. Para o ano há mais. Digo eu...

Mudança? Que mudança?

MacCain não perde uma para rebaixar o seu adversário pela fraca experiência executiva. Numa entrevista que vi há pouco, apontava as mesmas deficiências ao candidato a vice-presidente proposto por Obama. O jornalista, atento, disparou com a falta de exercício governativo dele próprio, MacCain, ao que o candidato repubicano retorquiu que tinha experiência sim senhor: dirigiu uma armada.
O homem confunde a liderança de batalhões em guerra, com a governação de um país. Será que é a mesma coisa?
Prognóstico preocupante.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Big Brother

Têm razão, os incansáveis defensores das liberdades individuais, revoltados com a ideia da aplicação de um "chip" nas lusas viaturas. Há por aí desabafos que nos descansam: "É uma afronta à privacidade de cada um. Ninguém tem nada que saber onde vou com o meu carro", li por aí. Justa reinvidicação, diga-se, e recomendável. Resta acrescentar que ninguém está minimamente interessado em saber onde qualquer um de nós foi com o carro ontem à noite. A não ser que um de nós pegue no carro para ir onde lhe apetecer e pelo caminho lhe apeteça roubar um Banco, atropelar um vizinho, ou cometer outra qualquer saudável leviandade. Este chip limitador da liberdade individual também limita os movimentos dos amigos do alheio que, coitados, assim vão ver a sua acção perigosamente reduzida. É uma injustiça.
Já agora, porque não proibir os cartões multibanco e de crédito, a via verde, o cartão FNAC, a internet, e todas as formas de facilitação do acesso à nossa vida privada? Há países onde algumas destas proibições, zeladoras das nossas liberdades mais íntimas, já se aplicam.
Aprendamos, pois.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Investigações perigosas

Paulo Pedroso foi condenado antes do julgamento. É sempre assim, num país onde a justiça funciona mal e porcamente. Agora parece que tudo não passou de um susto. Só que sustos destes não se limitam a brincadeira de circunstância. Um erro grosseiro afastou Pedroso da vida política activa. Uma investigação grosseira atirou-o para uma prisão durante meses a fio. Quem investiga desta forma atabalhoada não é investigado?

Silêncio pouco inocente


Manuela Ferreira Leite gere muito naturalmente o silêncio que a sua conduta dita. A ideia de que fazer oposição é morder as canelas do Governo a cada instante não encaixa no manual de normas da senhora. Acho muito menos razoável o banzé produzido pela oposição interna. Menezes, que prometeu estar calado, não fecha a matraca. Ângelo esgrime, retalia e sugere que as coisas sejam como ele acha. Marcelo faz o que lhe está na natureza: estar calado? Antes o poço da morte... Um malabarista, portanto. Ferreira Leite limita-se a ignorar o ruído. Chegará a sua vez. Mas este silêncio sai-lhe caro. Parece que o PSD está demasiado habituado aos Santanas e Menezes desta vida, que são como o burro que acompanha Shrek: calá-los é que é difícil.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Mudanças


McCain arranjou um número dois e pêras. É mulher, é gira, e é detentora de uma enérgica juventude. Se for a imagem a decidir, Obama já tem companhia. Só que há coisas que ultrapassam as performances pontuais dos candidatos. Os especialistas em comunicação já estão no terreno. A campanha eleitoral que espreita vai mostrar ao mundo o melhor e o pior da política-espectáculo. A senhora que vem do Alasca disse, assim que saltou para o estrado, que a mudança está na candidatura que integra. A coisa corre-lhe de feição: o furacão Gustav surgiu na altura certa para evitar o hipócrita reconhecimento de Bush. Perfeito.
Seja com Obama, seja com MacCain, a mudança está assegurada.
É só esperar para ver. É melhor esperarmos sentados.

Eleições americanas 2008. Acompanhe aqui.

Eu também

Gostava de conseguir dizer coisas assim
O ex-líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ontem, no Porto, que o silêncio da presidente do partido nos últimos dois meses "é mau, mas tem mais vantagens do que inconvenientes". Jornal Público, 2 de Setembro de 2008.
Luis Paixão Martins | Lugares Comuns

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Setembro


Setembro é o mês do ano de que mais gosto. Há muito que é assim. O futuro é agora. É agora que desenho o que quero que me aconteça.
Se vai acontecer ou não, veremos nos próximos capítulos. Mas sabe bem iniciar projectos, decidir movimentos improváveis, contornar o efémero. O telefone recorda que novas ameaças de trabalho surgem.
O calor já não incomoda. Apetece estar na cidade.
As férias já não passam de uma agradável recordação.

Cromos de Verão

A silly season oferece trabalho a incansáveis profissionais de várias áreas. Os cantores de feira correm as aldeias. Os bombeiros apagam fogos. Os ladrôes atacam casas desocupadas, desocupam os carros dos seus proprietários, subtraem lucros de delegações bancárias.
Depois há quem se especialize em comentar tudo isto. E também há especialistas em tudo isto e muito mais. Assim de repente recordo-me de Moita Flores e Ângelo Correia. O que dizem não ultrapassa a banalidade, mas não há nada que lhes escape: ele é a pequena Maddie, ele é a onda de assaltos, ele é a oposição ao Governo e a falta dela, enfim, assunto não falta. Mas tanta sabedoria satura.

Divórcio da realidade

Houve uma proposta de lei que Cavaco não aprovou: divórcios a torto e a direito, nem pensar. O casamento é para a vida. Quem casa só tem que se aguentar. Nem que seja à força. À porrada, mesmo. As que caem no chão é que se perdem.

Angústia do atleta antes do salto


Naide Gomes e Francis Obikwelu falharam. Depois de tanto esforço, as coisas não correram nada bem.
Acontece aos melhores. Estes dois casos provam-no.

Olimpíadas de Verão


Um atleta de alta competição reage com humor a uma inesperada derrota. Toda a "inteligência" desportiva o condena. Como é que um atleta de grande gabarito pode pensar no vale de lençóis em vez de se limitar a pensar na actividade física? O desporto é coisa séria. E para os comentadores desportivos é tão fácil corrigir os erros dos outros...

Vencedores



Nós podemos ficar muito contentes com as vitórias dos atletas que desfilam com as cores da bandeira, mas a vitória é só deles. Só eles a devem sentir como coisa sua. Como país não fomos longe. Mas não encontro aí grandes motivos de preocupação. O jogo da vida promove campeonatos constantes. O que ainda nos falta caminhar...
Quem se quiser demitir, demita-se. Só cá faz falta quem corre para a frente.

Estreia numa televisão perto de si

A gente regressa de férias, liga a televisão e repara que o país está a ferro e fogo. Tudo começou com o assalto ao BES de Campolide. Transmissão em directo. Dois rapazes resolveram brincar aos assaltos e, pensando que aquilo era como limpar o rabo a meninos, fazem reféns e exigências exibindo armas de fogo. A polícia fez-lhes o favor de levar a coisa a sério e actuou em conformidade: antes que os rapazes cumprissem a promessa de eliminar os funcionários do Banco que não escolheram ser figurantes naquele filme, resolveram retirá-los de cena, entrando no jogo, ou seja, disparando armas a sério. Os rapazes viram assim a brincadeira estragada. Depois tornou-se moda. Há assaltos de todo o tipo e para todos os gostos. Comentários em directo, por quem viu e por quem não viu, são transmitidos logo a abrir os noticiários. Até Cavaco veio fazer-nos queixa antes de falar com o Governo. É preciso tomar medidas, disse. E então? Será que o homem estava a pedir o número de telefone do Ministro da Administração Interna?
O país está a ferro e fogo. A violência está na moda. São precisas soluções. De queixinhas e novelas televisivas já estamos fartos.
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