sexta-feira, 29 de abril de 2005

Paul Auster por ele próprio



Paul Auster vai estar amanhã, sábado, na FNAC do Chiado.
O universo do escritor ali defronte, sem o filtro das folhas impressas.
O criador de livros como: "A Trilogia de Nova Iorque", "Leviathan", "Timbuktu", "A Música do Acaso" e o fabuloso "A Noite do Oráculo", entre outros inspirados titulos, vai estar à nossa disposição naquele simpático espaço.
Eu não vou faltar, obviamente. JTD

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Richard  Diebenkorn | António Mega Ferreira



Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez termos chegado.

António Mega ferreira Poema
Richard  Diebenkorn Pintura

terça-feira, 26 de abril de 2005

Basquiat | Luís Miguel Nava



VIRGÍNIA

Embora o sol fosse alto ainda, áquela
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.

Luís Miguel Nava Poema
Jean-Michel Basquiat Pintura

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Ungidos

Engraçada foi a intervenção de Portas no congresso do partido de direita que dirigiu até domingo passado.
Deturpando palavras de Mário Soares, este grande líder dos fogosos rapazolas conservadores disse qualquer coisa parecida com isto: "O Espirito Santo ia lá estar preocupado com o que pensa Mário Soares?!".
Que as pessoas, nas suas legítimas crenças, acreditem que é o Espirito Santo quem escolhe o Papa, é perfeitamente normal. Agora, que um líder político, no discurso mais empolgante do dia, na reunião magna da estrutura, venha defender tal crença, parece-me, no mínimo, fora de contexto. Parece-me a mim, mas posso estar enganado. É que eu não tenho conta no Espirito Santo. Se calhar é por isso...
JTD

Seremos todos católicos?

Ainda não percebi a preocupação de alguns ilustres agnósticos acerca da nomeação do Papa.
Dizem uns que este chefe máximo da igreja é demasiado conservador. E o anterior, era progressista?
Este Papa defendeu em tempos a pena de morte. Ratzinger perseguiu padres menos alinhados. E então, a inquisição fez o quê?
Meus caros ateus, deixem-se disso. Deixem lá os católicos entregues ao seu novo guru. O que é que a gente tem a ver com isso?
JTD

Quero-te



A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

José Afonso

sábado, 23 de abril de 2005

Dia Mundial do Livro



AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Ai a obra...

"A obra existe, fala por si". Estas palavras foram prenunciadas por Helena Lopes da Costa, vereadora da Câmara de Lisboa, referindo-se à actividade de Santana, em reacção à escolha de Marques Mendes, favorável a Carmona Rodrigues.
Santana ainda não percebeu que o seu tempo chegou ao fim, e esta gente ainda não se conformou com este facto. Sem Santana não existem. E essa não existência perturba-os. O inenarrável Pedro Pinto também veio titubear umas enormidades muito ao seu jeito. Boa escolha, Marques Mendes, pelo menos não temos que aturar a queixosa campanha santanista. Já não há a mínima pachorra para tanta choraminguice.
RR

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Al Berto



eras novo ainda
mal sabia reconhecer os teus própios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço

Al Berto

terça-feira, 19 de abril de 2005

Sensibilidade e bom senso, procuram-se.

Dizem-me agora que também há um anúncio, destes da Santa Casa, em que uma professora manda às urtigas os alunos e desata a correr e a pular pelos corredores da escola, direitinha à porta de saída, logo que sabe que foi contemplada. Ou seja, educar, lidar com a juventude em crescimento é algo de fastidioso, ou mesmo insuportável. Quanto mais não vale estar fora de tudo. Ser nababo é a solução mais eficaz para combater os males da sociedade. O pregão é: "És rico, borrifa-te no resto".
Quem tem que trabalhar que se amanhe.
Um belo serviço prestado à cidadania pela Santa Casa.
JTD

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Foi desta

Há um senhor pequenino que goza que nem um cabinda com os cidadãos que esperam pela sua chamada, de senha na mão.
Há um jovem empregado de hotel enfezadinho que retém o elevador para enervar os clientes, já impacientes, no hall do estabelecimento hoteleiro. O desfecho é a exibição do desprezo pelos pobretanas que insistem em ser normais e educados. "Foi desta" aparece em rodapé. A mentalidade do "xico-esperto" na sua melhor performance.
É a mais desbragada apologia da desfaçatez e má educação. Mas é um muito frequente anúncio nas lusas televisões, atirado para os ecrãs pela Santa Casa. A parolice e o mau gosto vencem o decoro e a decência.
Que rica Santa Casa que a gente aqui tem, sim senhores...
JTD

Pedro Chorão | João Esteves de Oliveira



João Esteves de Oliveira é nome de galeria. Fica na Rua Ivens, em Lisboa, e tem como motivo para a existência a divulgação de trabalhos em papel. João Esteves de Oliveira, o homem do leme, é um especial apreciador do desenho como forma de expressão artística. Esta disciplina, particular aliada da edição, estimula a actividade deste amante dos livros, como objectos divulgadores de beleza.

Actualmente as paredes deste lindíssimo espaço estão preenchidas com obras de Pedro Chorão.
Manchas, riscos, materiais de suporte menos nobres que aqui atingem elevadísima classificação. Tanto Pedro como João merecem ser visitados. Quando um artista competente é representado por um divulgador como João Esteves de Oliveira, o resultado desta feliz associação só tem que dar um excelente trabalho. Vale a pena, garanto.
JTD

Pedro Chorão
TRABALHOS SOBRE PAPEL
João Esteves de Oliveira | Galeria de Arte Moderna e Contemporânea
Rua Ivens, 38, Lisboa (Chiado)

sábado, 16 de abril de 2005

O jogo das meretrizes

Pinto da Costa foi ás putas. Ou por outra, arranjou umas "meninas" para alcançar umas contrapartidas.
Claro que não é a mesma coisa. O sensível dirigente do Futebol Clube do Porto, apreciador de poesia e dedicado católico, nunca praticaria tão vil pecado.
Quem deve responder perante a justiça são os promíscuos árbitros, que, não só convivem com os mandões da bola intensamente, como se aproveitam dos prazeres por eles arranjados. Pinto da Costa não tem nada a ver com os comportamentos indignos dos árbitros portugueses. Aliás, se pecado houvesse seria perdoado na missa de amanhã.
Vale a pena ter fé. Ou se vale.
JTD

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Brecht



"Um Homem é um Homem" está em cena.
Excelente.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Teatro em Setúbal



É hoje a estreia da peça "Se perguntarem por mim, não estou". Lá estaremos, às nove e meia da noite. Porque o teatro é à noite, e este até tem morcegos. Até logo.
JTD

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Se perguntarem por mim, não estou.


No seu 30º aniversário, o TAS estreia amanhã, 14 Abril, a sua 98º produção, A peça SE PERGUNTAREM POR MIM NÃO ESTOU, é de um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa contemporânea, Mário de Carvalho. A encenação é assinada por Duarte Victor, e estará em cena no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, de quinta a sábado às 21.30h e domingos às 16.00h, até 22 de Maio.

Fazem o espectáculo:
Actores Célia David, José Nobre, Isabel Ganilho, Carlos Rodrigues, Fernando Guerreiro, Maria Simões, João Gaspar, Susana Brito.
Encenação Duarte Victor.
Assistente de Encenação Miguel Assis.
Imagem José Teófilo Duarte.
Sonoplastia e banda sonora Miguel Ramos.
Luminotecnia António Rosa.
Montagem e Contra-regra João Carlos.
Produção executiva João Gaspar.
Assistente de produção José Santos.
Montagem em vídeo Filipa Machado.
Adereços Zé Nova.
Guarda-roupa Mercedes Lança.

Em Se perguntarem por mim, não estou, entre os habitantes de um prédio de habitação surge a suspeita de que um tigre anda à solta dentro do edifício. A confrontação dos seus habitantes com a situação, o pavor que provoca a presença nunca materializada desse estranho herói e a revelação dos traços psicológicos de cada personagem provocada pelo terror servirão de base à construção de um paralelismo entre a ridícula e particular experiência do grupo e a terrível e histórica experiência do nazismo. O teatro será assim uma forma (parábola?) de dimensão humana para falar de valores, ideias que transcendem o comezinho evoluir dessa mesma humanidade.
Caminhos da escrita dramática em Portugal no final do século XX. Maria João Brilhante

Os morcegos têm má visão e andam sempre a entrar onde não devem! Uma noite, um morcego entrou na cova duma doninha que era uma grande comedora de ratos. E vai a doninha e diz-lhe: «Que bom, olha um rato, vou comê-lo.» E o morcego respondeu: «Não vês que tenho asas? Onde é que tu viste um rato com asas? Eu não sou um rato, sou um pássaro!» E a doninha, que não gostava de pássaros, deixou-o ir embora. Mas o morcego, atarantado, foi ter a um buraco de árvore em que havia um gavião. O gavião adorava pássaros, e diz: «Olha que boa coisa, um passarinho que vem mesmo a calhar!» Mas o morcego respondeu: «Essa é boa! Passarinho, eu ? Olha para este pêlo, tão liso e tão macio! Onde é que tu vês as penas?» O gavião disse: « É verdade, não tem penas ... não é um pássaro.» «É evidente que não», respondeu o morcego, «eu sou um rato.» « Bah , detesto ratos», respondeu o gavião. E deixou o morcego ir-se embora... Eu sou assim... Numas circunstâncias... sou uma coisa; noutras , sou outra... Assim tenho evitado as chatices. Enfim... algumas...
Texto da peça

Paulo Leminski



moinhos de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia
______________________

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
________________________

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
________________________

acordei bemol.
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

Estes pequenos grandes poemas são de Paulo Leminski, poeta relativamente pouco conhecido do grande público, mas adorado por aqueles que conhecem sua obra. Leminski era natural de Curitiba, capital do Estado do Paraná, onde nasceu, em 1944, e onde veio a falecer, em 1989. Começou a publicar poemas na revista "Invenção", porta-voz da poesia concreta paulista, em meados dos anos 60. Também compositor, teve canções suas gravadas por Caetano Veloso por conjuntos como o "A Cor do Som". Além de escrever prosa e poesia, traduziu obras de James Joyce, Samuel Becktett, Alfred Jarry, entre outros, colaborando, também, com o jornal "Folha de São Paulo" e com a revista "Veja". Em 1975, publicou o romance experimental "Catatau", celebrado pelos críticos literários como um livro "divisor de águas", ao apresentar renovações no terreno da linguística na senda aberta por Pound, Joyce, Beckett e Guimarães Rosa. (No final dos anos 80, sua biografia sobre Trotski foi livro de cabeceira daqueles "que amávamos tanto a Revolução", mas que nutríamos uma admiração secreta pelos dissidentes...) Sua obra, sobretudo a poesia, exerceu influência marcante nos movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Não cabendo apenas no rótulo de poesia concreta, a poética leminskiana funda-se sobretudo na ideia de engenharia de linguagem, na qual sua verve crítica e ao mesmo tempo bem-humorada varre um sem-número de aspectos (ou seriam espectros?), que vão da política à metalinguagem, passando pela literatura e pela própria dimensão existencial. É um autor que merece ser (re)descoberto e certamente a reedição de suas obras contribuiria para tal. Em 2001, um de seus poemas ("Sintonia para pressa e presságio") foi selecionado por Ítalo Moriconi para ser incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", da Editora Objetiva, do Rio de Janeiro.
ALF

terça-feira, 12 de abril de 2005

Euan Uglow | Fernando Pessoa



Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

Fernando Pessoa Poema
Euan Uglow Pintura

domingo, 10 de abril de 2005

Eles andam aí


O PPD-PSD foi a congresso. Santana declarou: "Não vou estar aqui, mas vou andar por aí". Olha a novidade. Que ele é do tipo lapa, já toda a gente sabia. Que a falta de vergonha ficou na folha de uma couve e veio um burro e comeu-a, também não é surpresa para ninguèm. Agora, que o partido hexite entre esta corrente (Menezes) e outra igualmente lamentável (haverá correntes não lamentáveis neste grupo?), mas um poucochinho mais respeitável, já nos coloca dúvidas sobre o carácter colectivo do partido que eles dizem amar. Eles amam não sei o quê, nem sei porque razão. Recentemente apareceu outro amante de respeito, que politicamente mais parece um tubarão fora das suas águas. O homem estava em Londres, na boa, e agora deu-lhe para vir salvar o país. Que no seu entender só poderá ser salvo pelo seu partido. Ou mesmo por ele, que sabe muito de economia e continua a achar que é a economia que vai salvar o mundo. De resto, a apoiar ou a apoiar q.b. a liderança, os mesmos de sempre. Sem surpresas, também.
As hesitações dos congressistas, reveladas na pouca diferença de votos entre as duas candidaturas, são a demonstração do desnorte, anunciador da longa carreira na oposição. Porreiro. Continuem a andar por aí, mas não fiquem aqui a meter nojo.
JTD

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Abrigos



Eu não tenho uma cidade ideal. A minha cidade ideal é uma cidade de cidades, uma colagem de lugares. É assim que eu vejo o rio Tejo e as varandas que para ele dão ladeando os arranha-céus de Hong Kong, em especial o banco da China de LiPei, nas margens Mar das Pérolas; o Banco faz esquina com a rua das livrarias do Rio de Janeiro, a mesma do China Club de Paris que, nesta minha cidade, fica defronte dos jardins de Luxemburgo, no centro dos quais se encontra café Pullmans de Utrecht, com vista para a 9 de Julho de Buenos Aires, morarda do Museu de Fotografia de Arles, cujo portão abre para as termas de La Garriga, ao lado dos quais fica a biblioteca de Nova Iorque na Rua 42, perpendicular à Avenida Eduardo Mondlane do Maputo, lugar do colorido mercado de Hanói, vizinho do mercado de Barcelona e da Piazza de la Signoria defronte da esplanada do Sporting Club de Beirute, de onde se avista o mediterrâneo.

Este poderoso texto está incluído num importantíssimo livro, editado pela Cotovia, onde António Pinto Ribeiro esplana as suas muito oportunas opiniões sobre as cidades e o que é viver nelas.
Este livro tem todos os ingredientes para se tornar leitura obrigatória para autarcas e outros operadores regionais. Ao fim e ao cabo, todos nós, os que andamos a "fazer coisas" nas urbes.
A leitura desta obra alarga-nos as concepções catalogadas e politicamente correctas de cidade e da sua utilização enquanto cidadãos vivos e activos.
Esta poderá ser, na minha opinião, a abordagem mais cosmopolita que a edição portuguesa imprimiu.
Leiam este livro, senhores presidentes de câmara.
Leiam este livro, senhores vereadores do urbanismo.
Leiam este livro, senhores vereadores da cultura.
Leiam este livro, meus caros amigos.
JTD

Título; Abrigos, Condições das cidades e energia da cultura.
Autor: António Pinto Ribeiro
Edição: Edições Cotovia, 2004

António Pinto Ribeiro nasceu em Lisboa.Viveu em vários países africanos e europeus. Tem repartido a sua actividade profissional entre a investigação académica em áreas como as Teorias das Culturas e a Estética e a Programação Cultural e Artística. É professor conferencista de várias universidades internacionais. É autor de obras de história de arte, de ensaio e de um romance. Na Cotovia publicou Por exemplo a cadeira, Ser feliz é imoral? e Abrigos.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Euan Uglow | Sérgio Godinho



Eu, contigo
eu consigo
fazer o que digo

Eu, contigo
eu não cobro
eu não pago
e eu não devo

Devo dizer-te ao ouvido
eu sem ti
não tem sentido
tem sido
(devo dizer-te ao ouvido)
bem bom
bem bom bem bom
bem mais
do que o que é bom
bem bom bem bom

Sérgio Godinho Poema
Euan Uglow Pintura

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Dia X

O sítio da minha morada profissional nos respeitáveis monitores individuais estará disponível em breve. É já a partir do próximo dia 25 de Abril. A data não foi escolhida por acaso. Naquele tempo (o outro tempo, o do fascismo) este tipo de divulgação não sería permitido. Mas aquele tipo de regime também não tería grande chão depois da "invenção" da internet.
Quem quiser pode entrar. Apesar de não passar do "wall" de entrada.
DDLX
JTD

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Euan Uglow | Eugénio de Andrade


Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade Poema
Euan Uglow Pintura

domingo, 3 de abril de 2005

Luto

Portugal está de luto. Foi decretado luto nacional de 3 dias.
Eu não. Não conhecia o senhor que morreu. Não era uma das minhas referências e não apreciava a sua intensa actividade.
Os rituais da igreja católica provocam-me náusea. Nem Marcelo Rebelo de Sousa me convence. Mas esse já não convence há muito tempo. E não é só a mim, aqueles "diálogos" dominicais já não convencem ninguém. Já agora: José Manuel Fernandes (hoje, no Público) comeu qualquer coisa estragada. Só pode.
JTD

sábado, 2 de abril de 2005

Andanças de Agualusa



A passagem do angolano José Eduardo Agualusa pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) causou alvoroço no ano passado. O escritor se transformou em best-seller do festival e numa espécie de "muso" após ser exaltado por Caetano Veloso numa das mesas da Flip: o cantor rasgou elogios ao seu "O ano em que Zumbi tomou o Rio", livro que virou um dos mais vendidos da festa. Sim, Agualusa é belo, charmoso e cultiva um certo ar blasé. Tantos adjectivos não se sobrepõem à sua escrita. Pode-se dizer que o Brasil "descobriu" o escritor em Paraty, mas ele há muito fez do país fonte de suas narrativas. O autor, que nos visita freqüentemente, vem agora para o lançamento da coletânea de contos "Manual prático de levitação" (Gryphus), segunda-feira, às 20h, na Livraria da Travessa (Visconde de Pirajá 572). E na próxima quinta-feira o escritor abrirá o projeto Vozes d'África, às 17h30m na Academia Brasileira de Letras (ABL). Aos 44 anos, Agualusa morou em diversos lugares: Luanda, Ol inda, Rio, Lisboa. Destas andanças fez cenários de seus livros, interconexões culturais. A multiplicidade é um ponto chave para compreender sua obra que mistura realidade e ficção. Ao GLOBO, ele fala sobre miscigenação, racismo e esquecimento. E, com humor, diz que, infelizmente, não é Chico Buarque.
ALF

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Rogério Ribeiro


"A necessidade do discurso, a vontade de compreender, pelos códigos da linguagem plástica, o uso colectivo das mensagens que podem ser partilhadas. Não se trata de descer ao slogan ou à redução panfletária dos signos: trata-se de procurar conferir ao mundo das formas um carácter ao mesmo tempo poético e poeticamente operativo".

Estas palavras de Rocha de Sousa sobre a pintura de Rogério Ribeiro foram escritas em 1981. Hoje fazem parte de uma arqueologia dos códigos de expressão sobre pintura. A obra que Rogério produz actualmente pode parecer estar a milhas deste conceito, mas na sua essência, todos os códigos referenciadores estão lá.
Esta definição, que marcou de certa forma tudo o que o pintor fez até finais dos anos noventa, são hoje referências de catálogo. Isto porque a evolução do pintor, na sua relação com os sinais do seu tempo, é evidente.

Rogério Ribeiro vai inaugurar amanhã, na Galeria Municipal - Convento de S. João, em Montemor-o-Novo, uma nova mostra intitulada simplesmente "Desenho", que, na minha opinião, é do melhor que o artista fez nos últimos tempos, e que se inscreve num exercício da expressão estética extremamente contemporâneo. Desenho liberto de preconceitos catalogadores, amadurecido pela descontracção que a tarimba da muita experimentação fornece aos mais atentos. A exposição inaugura às 16 horas de sábado, e estará patente até 7 de Maio. Montemor-o-Novo é já aqui, em Portugal. E esta exibição é de altíssimo gabarito. JTD
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