sábado, 31 de janeiro de 2004

E nós, vamos para onde?

Alberto João Jardim vem aí para ocupar o segundo lugar na hierarquia da Nação. E nós, vamos para onde? Para a Madeira?
JTD

quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

A Masturbação

JPP, um clínico caso de solidão, esteve no seu "melhor" quando, a propósito da cobertura da morte e velório de Fehér, se referiu a esta como uma "masturbação [pública] da dor". Como nós sabemos, JPP é, tal como Woody Allen, um grande especialista dessa prática milenária que é a arte do "amor próprio", a técnica do "Eu" enquanto amante dele próprio. No entanto, JPP tem estado a tornar-se um amante desleixado. Os seus "preliminares" são previsíveis, já se sabe onde ele vai tocar e com que tensão o fará. O fetiche do ermita da marmeleira de mãos calejadas (de escrever, claro) a debitar comentários murchos sobre tudo o que se ergue na agenda nacional revela uma certa "inveja" mais frequente no sexo oposto, mas que muitas vezes toca o sexo masculino, e que o inibe de melhorar a sua performance... literária. Caro José, vou-lhe sugerir uma forma de reganhar outro ânimo na sua escrita: sente-se em cima da sua mão esquerda durante alguns minutos. Quando ela ficar dormente, utilize-a para investir na escrita com toda a pujança. Vai ver que vai parecer outra pessoa!

Dr. Estranho-Humor

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Adeus

Sendo benfiquista, e um português adepto do futebol, sinto uma enorme comoção neste momento. Por todas as razões e mais uma: num país onde a maior parte dos intervenientes/profissionais do futebol primam pela falta de nível, não posso deixar de me comover sempre que revejo na televisão a forma graciosa como Feher acata a decisão do árbitro, sorrindo. Esta atitude - de grande dignidade e fairplay - embora nos ajude a lembrá-lo no seu melhor, dificulta em muito a aceitação da sua morte.

A.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

Por outro lado...

Esperei e ganhei. Depois da disparatada verborreia da cantora do cabelo azul, Ana Sousa Dias convocou Sequeira Costa para o seu programa. Foi uma boa escolha. A música foi outra. A conversa foi calma como são as conversas saborosas. Voltámos ao território da qualidade verdadeira. Até pr'á semana. JJC

Graves certezas 

Gosto das crónicas de José Eduardo Agualusa, na Pública, aos Domingos, de quinze em quinze dias. Já disse e redisse. Por isso mesmo, não vou deixar de transferir para aqui, uma muito pequena passagem do texto de hoje. A parte mais sensação, confesso.
...
Quem ainda não aprendeu a falar também, em princípio, não aprendeu a mentir. Há excepções. Há quem nunca aprenda a falar e, todavia, aprenda a mentir. Estou a pensar, por exemplo, em George Bush.
Acredito nas crianças e nos cães. Não confio nos gatos. Entretanto, tive um filho. Ele não acredita no Pai Natal. Não acredita em vampiros, nem em fadas, nem em bruxas, nem em anjos, nem em dragões. Não acredita que o Michael Jackson é negro. Já descobriu que os professores não sabem tudo e tem dificuldade em compreender para que serve um advogado. Explicou-me que quando as pessoas morrem não vão para o céu, não senhor, porque no céu só há nuvens e pássaros, e estrelas à noite. Quando as pessoas morrem vão para dentro de uma caixa com flores. Também não confia nos gatos. Nos cães, sim. Tem sobretudo uma enorme fé nele próprio. É um céptico precoce. Mas é um céptico feliz. Eu tento ensinar-lhe que é possível acreditar na humanidade mesmo sabendo que os professores não sabem tudo e que os juizes também erram. Mesmo sabendo que o Pai Natal não passa de um rapaz pobre, disfarçado de velho rico, que finge oferecer brinquedos para, de facto, os vender. Mesmo sabendo que George Bush é o presidente da América.
São mais as coisas para as quais não tenho resposta, hoje, do que quando era adolescente. Creio, porém, haver menos a recear de um homem com dúvidas, do que daquele que exibe graves certezas sobre tudo.

...
JTD

domingo, 25 de janeiro de 2004

Santos da casa

João Pereira Coutinho costuma assinar uma secção - Estado crítico - no Expresso. A primeira crónica da edição de sábado - Mulherzinhas - é detentora de uma tremenda misoginia. Baseando-se em estudos generalistas, reveladores de pouca simpatia pelos comportamentos femininos, sente-se lendo aquele texto, que o Homem, no seu comportamento mais vulgar de macho predador, é um exemplo de virtudes. A segunda crónica, sobre as recentes atitudes do Estado francês acerca do véu islâmico, colocam-me em relativa concordância com o opinador Coutinho. Mas a terceira - Parque jurássico - sobre as televisivas homenagens a Ary dos Santos, não me poderiam por mais de acordo com o cronista. Já aqui o referi. Não percebo que pessoas crescidas façam aquelas figuras. Carlos do Carmo faz revelações sobre as sua opiniões acerca do poeta, como se de algo absolutamente imprescindível se tratasse. Tordo também. E os outros todos, idem. Agora, até parece que os ridículos festivais da canção foram importantes para a música - A música universal, no dizer de Tordo. Os versos rimados à força e as melodias feitas a martelo são grandes canções, segundo estes senhores.
Estes casos, ou optamos por ignorá-los, ou então é preciso que alguém acenda a chama que ilumina a sensatez. JPC fez isso no Expresso. E fez muito bem. JTD

sábado, 24 de janeiro de 2004

reBlogue

Para quando?

Vejo o Magazine - apresentado pela Anabela Mota Ribeiro - e todas as noites a ouço dizer: "esta noite vou ver dança; esta noite vou ao cinema; esta noite vou ler um livro".
Continuo a seguir o programa na esperança de a ouvir dizer: "Esta noite vou dar uma bela trancada!"
Nâo me desiludas, Anabela..

papoila

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Sem comentários

Os estabelecimentos de ensino de Setúbal passaram a ser apadrinhados por pessoas que, de uma ou outra forma, podem servir de exemplo a crianças e jovens. Um dos padrinhos é o cantor Toy, autor e intérprete de um hino das escolas.

Do Jornal Municipal de Setúbal. Acabadinho de sair.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

Fim de festa

O João (Duarte Victor) convidou-me para fazer a concepção visual da peça que vai encenar, e que tem estreia marcada para Maio (em princípio, se não houver traição dos subsídios).
Já li o texto. É Beckett. Titulo: "Fim de Festa". Já estou com ideias para os ambientes de palco e para os grafismos. Fiquei entusiasmado. O teatro provoca-me sentimentos pouco dialogantes. Ou gosto, ou rejeito sem complacências. Por exemplo: Das peças da Cornucópia, mesmo quando não gosto, gosto na mesma. Os textos de Samuel Beckett também me provocam uma adesão imediata. Como também gosto das encenações do João, acho que isto poderá correr bem. Vamos lá a ver. Estão todos convidados. Depois aviso. JTD

Há dias...

É verdade. Há dias do caraças. Hoje foi um deles. Fiz montes de coisas, corri Seca e Meca, mas não tenho nada para dizer. E isso é muito desagradável. A partir do momento em que criamos um blogue temos que alimentá-lo, dar-lhe motivos de interesse que não afastem a freguesia. Ora assim é complicado. Na mesa do computador que alimenta este vidro electrónico, está um pequeno televisor onde passa o excelente filme "O Quarto do Filho" de Nanni Moretti. Tenho o DVD, na colecção do PÚBLICO. Os meus amigos conhecem a história, não é verdade? Sim, não devem pertencer à legião de concorrentes do "Quem quer ser milionário". O que mais me intriga é querer-se ser milionário num concurso em que é suposto ter-se conhecimento, e não se ter conhecimento nenhum. Mas depois ganha-se sempre qualquer coisa. Começo a ter inveja dos ignorantes. Nunca mais vejo esta merda. Estou, portanto, sem assunto. Vou regressar ao livro de Gonçalo M. Tavares: "Um Homem: Klaus Klump". Estou a gostar bastante. É uma muito interessante leitura da relação da verdade com a mentira, ou seja, do exercício da sedução nos seus desígnios mais, e menos nobres. A literatura é sempre uma boa solução, quando precisamos de aperfeiçoar a realidade. E a música também. Vou ali pôr o "Gustav Mahler/Uri Caine: Urlicht/Primal Light". Comprei o CD esta tarde, na FNAC. O bem que nos sabem os discos que ouvimos pelas primeiras vezes, não é? E pronto. Perdoem-me estes desabafos, mas é o que se pode arranjar. Até já. JTD

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

Esquecer, ainda é o melhor

RTP1. Os convidados pareciam personagens da "Família Adams". Ou talvez de um programa televisivo mexicano (sem ofensa). Mas não. Palavras para quê? Eram artistas portugueses em homenagem a Ary. O poeta não mereceria melhor? Pessoalmente nunca apreciei, mas cada vez que oiço os relatos das suas vivências, pelos amigos, ainda me desloco para mais longe. É um carpir de injustiçados (coitadinhos), pelo país, pelos habitantes do país, pela crítica literária. Enfim, uns desgraçados (lá pinta disso têm) não reconhecidos por uma legião de indigentes mal agradecidos. E as comparações? Estes rapazes acham-se o máximo. Fernando tordo então, não tem chão para ele. Aquelas rimas forçadas, são afinal, grande poesia. Não poderemos esquece-los? Podemos pois! JTD

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Lagarto! Lagarto!

Já sei quem é a Wanda Stuart que quer Santana Lopes como Papa da cultura e da gestão autárquica. Deu uma entrevista no "Por outro lado", na 2: A entrevista não deixa rasto de brilho. Foi apenas uma manifestação de narcisismo cretino. Percebi que já a conhecia por causa do cabelo azul, e das canções ridículas que gargareja. Vi-a há pouco tempo na caixa de lixo numa disparatada performance. Pelos vistos, esta é que seria a arte promovida pelo ministro Santana. Lagarto! Lagarto!
A próxima entrevista de Ana Sousa Dias será, de certeza, melhor. Estou esperando. JJC

É a economia, estúpido!

Vitor Constâncio dizia, aqui há uns meses, que a situação do país era pior do que se pensava. Agora diz que não senhor, que a economia vai entrar em franca recuperação já este ano. Em que ficamos?
Sei dizer que o professor da TVI já o considera quase um papa. Será que estamos perante a mais recente aquisição para o campo contrário? O dos que querem, acima de tudo, estar muito bem sentados? Isto da economia não é para todos. Eu próprio demito-me já deste comentário. Se não percebo nada disto, para que faço estas afirmações sem sentido? O que vale é que eles também as fazem. JTD

Se o disparate...

Está a passar na RTP1 um programa sobre Ary dos Santos. Uma seca onde a baboseira abunda. Eis então que Fernando Tordo, esse grande vulto da música universal diz: "Quem faz um filho, fa-lo por gosto, é crucial para toda a música portuguesa". Claro que o rol de cruciais parolices não ficou por aqui. mas para o resto da peça já não tenho paciência. Se o disparate fosse música, tinhamos aqui um grande programa. JTD

domingo, 18 de janeiro de 2004

Às vezes, Uma imagem não vale nada

As caricaturas de Vasco no PÚBLICO servem para quê? Ainda por cima fazendo rodapé às eficazes crónicas de António Barreto. É muito triste deparar com tamanha falta de graça. JTD

Pedofilia na Madeira? Quem disse?

Excelente. A caricatura de Alberto João Jardim - A velha meretriz, na primeira página do EXPRESSO, da autoria de António, confirma aquela ideia: "Uma imagem vale mais que mil palavras". É António no seu melhor.
JTD

O governo dos pobres

O primeiro-ministro do país Portugal, afiançou que aumentos na função pública, só para os mais mal remunerados. Os directores dos hospitais, esse desgraçados, estavam com ordenados abaixo de cão. Logo era urgente um aumento e mais algumas regalias, absolutamente necessárias para os tornar mais competentes ainda. Por exemplo, um carrito veio mesmo a calhar. Quem disse que este governo não se preocupa com os mais necessitados? JJC

O que se diz por aí...

Uma tal Wanda Stuart, penso que em entrevista a uma dessas revistas do tipo não adianta nem atrasa (citada na Visão), sugere que Santana Lopes desempenhe as funções de presidente da câmara de Lisboa em simultâneo com as de ministro da cultura. Já agora por que não também as de presidente do sporting? Teríamos razão para dizer: Lagarto! Lagarto! BN

quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

reBlogue

Marte ataca

Bush quer ir a Marte. Parece que os serviços secretos norte-americanos garantiram haver ligações mais do que suspeitas entre os marcianos e a Al Quaeda.
Daniel Oliveira Barnabé

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

Causas da cultura

Afinal é uma fotobiografia sobre a passagem de PSL pela cultura. E eu a julgar que era um tratado sobre cultura.
Não diverte. É triste. É injusto para Teresa Patricio Gouveia. E é peocupante porque revela algum despudor por parte de alguém que só pensa ser presidente da República, custe o que custar. Quem edita é Zita Seabra. Fica tudo em família e ficam todos muito contentinhos. A Agustina é que me mete impressão... BN

Quem corre por gosto...

Afinal não foi frete. Agustina faz aquela figura, mas sem problemas. Segundo a edição do Público de hoje, a escritora definiu Santana Lopes como "Um homem para todos os tempos, chova ou faça sol, um homem que tem a força da opinião, capaz de representar a razão de todos". Espero, muito sinceramente, não estar incluido nesta razão. E quanto à intemporalidade do senhor, olhe que quem anda à chuva... molha-se. BN

terça-feira, 13 de janeiro de 2004

Ai tanto violino...

Agustina Bessa-Luís apresentou no grémio literário o livro de Pedro Santana Lopes: "Causas da Cultura".
É a vida. Agustina foi funcionária santanista no tempo em que o Pedro era Secretário de estado. Agora está agarrada. O que poderá levar uma escritora com mérito a fazer um frete destes? Será gratidão, mas deve doer. Ainda não sabemos se lá estiveram também Eunice Munõz e Rui de Carvalho a recitar poesia de Carlos Castro ao som dos violinos. Ou os actores do parque em alegre representação brejeira, mais consentânea com a actuação de PSL enquanto secretário de estado. Haja paciência. BN

Luiz Pacheco II

A celeuma que a entrevista de Luiz Pacheco ao DN provocou na blogosfera, não me entusiasma. De facto, não estou de acordo com ele na comparação Saramagoagustiniana, mas Pacheco é Pacheco e não há nada a fazer. Como tal prefiro reparar no melhor que ele fez. E estou de acordo com ele em relação a "O Teodolito". É capaz de ser o trabalho com mais força que passou ao papel. O texto que se segue é retirado de lá e é do melhorzinho que por aí anda. Terei razão? vamos comprovar:

Com a minha infância, se me permitem um depoimento formal, passa-se qualquer coisa de curioso, de ambíguo. Entro e saio dela quase sem dar por isso, às vezes mesmo não reparo ou não sei se estou para trás ou fiquei aqui e agora. De dia sou menino, à noite velho caquético e o contrário também pode acontecer. Às vezes demoro-me mais tempo num dos extremos - são o que eu chamo as minhas crises. Outras, ainda, acumulo os tempos, crio-me uma infância lógica e paralela, ganha-me uma talvez pureza e fico-me a vê-la, ora maravilhado, ora irritado, ora assustado, com o olhar cheio de ronha do macróbio que já viu muito filho de muita mãe e de si próprio duvida mais do que todos e do que de todos. A verdade é que ainda não me decidi por uma idade certa, continuada. Ou um tempo. Não se faz ideia o que isto desconcerta os que lidam comigo, mostram-se incapazes, e tanto melhor para eles quem sabe? de me acompanharem pelas súbitas digressões, neste jogo inevitável e por vezes, inconsciente, incontrolável de ida e volta. Para as mulheres, então é um desespero. Elas são logo adultas muito cedo (e só recuperam a infância esquecida, o sorriso inocente translúcido de crianças, por instantes, nos breves instantes depois do osgasmo), é a Natureza quem lho exige. Ao pé de mim, envelhecem com uma rapidez devastadora. Ora resta dizer que esta minha duplicidade, que eu não sei se sei disfarçar, só se observa pelo lado de dentro, creio eu, só eu a vejo e meço em toda a sua grandeza (isto é: natureza). Pelo lado do espelho, que são os outros e a minha carcaça, vou envelhecendo a olhos vistos, vou esfriando, ganhando distância. Também as viagens de volta à infância me são cada dia mais dolorosas e arrojadas; regra geral, desde uns tempos a esta parte costumo viajar só de noite, durante o dia sou avô de mim mesmo. Deixei crescer as barbas. E não me rio nunca. Senão bêbado.

Então, valeu a pena? Espero bem que sim. Amanhã vou visitar o Luiz Pacheco. Já decidi. Depois digo qualquer coisa. JTD

segunda-feira, 12 de janeiro de 2004

E vergonha, não há?

O soba do Funchal diz que não há pedófilia na Madeira. É invenção dos comunistas. A criatura ainda está nesta. Como é possível um país democrático manter um sem-maneiras desta estirpe durante tanto tempo no poder? Atrás dele, numa de emplastro, estava o ministo Bagão. Não parece ter corado de vergonha. O outro chefe tribal, o do continente, apresentou candidatura autárquica a Amarante para apurar a raça, ou não sei quê...
O que pensará esta gente da política como exercicio, de facto, da cidadania?
A direita portuguesa não tem ninguém mais qualificado para apresentar a estas populações, ou continua a ser a mais estúpida da Europa? Sinceramente, não acredito.
BN

Luiz Pacheco I

Em Lisboa, no quarto do lar onde mora, movimentos limitados, vista embaciada, ouve música e notícias, com a solidão alimentada por memórias e com notável lucidez. A sua impulsividade deu lugar à serenidade. Sem complacência nem autocomplacência nem perda do gosto de provocar. Nascido em Lisboa (1925), fez o liceu no Camões e foi para a Faculdade de Letras, que deixou por falta de meios. Em 1945, começou a escrever, a editar-se e a outros: revelou em português Apollinaire, Büchner, Ionesco, Kleist e Sade, nomeadamente. Vendeu livros e panfletos, colaborou em jornais. Autor de culto, com O Libertino..., O Teodolito, Comunidade. O marginal da nossa república das letras teve sempre vida instável.
Assim apresenta Elisabete França o escritor Luiz Pacheco, na entrevista que este lhe concedeu para o DN e que motiva esta abordagem.
Em 1990, editei "O Teodolito", na Estuário Publicações. Para essa edição António Mega Ferreira escreveu na apresentação:

O Teodolito, pois, Um instrumento astronómico e geodésico que serve para medir directamente as distâncias e as alturas zenitais, segundo rezam os bons dicionários. É um instrumento de aproximação, rápido, preciso, eficaz, um instrumento de compreenção, porque as distâncias são "as realidades", ou a propriedade através da qual "estas se definem e singularizam. e mais à frente: Medo da morte? Mas quem o não tem? por isso mesmo se escreve; contra a vida irredimível, contra a morte inevitável. Contra."não falemos da nossa infância. Não falemos... não falemos mesmo de nada. O meu teodolito chega."

Escolhi para fechar esta artigalhada, este pedaço de texto de O Teodolito:

Mas uma infância só tem um sentido, só presta, se conseguimos sair dela, se teve resultado, isto é, se deu (e nós com ela, nós pós ela) para algum lado. Ora isto não é assim como se julga. Há os que avançam um bocadinho, mas depois param na adolescência - e são rapazolas toda a vida e chegam a velhos, quando chegam, e só fizeram foi rapaziadas. Outros ficam sempre sendo garotos mimalhos. Nada disto é coisa de louvar - no plano sociológico (no de cada um, tanto faz). Tudo se quer a seu tempo. O pior, o difícil, é haver só (e uma vez só) um tempo para cada coisa ou estado ou atitude. Um tempo certo para cada jogada, como no xadrez. Uma táctica subordinada a uma estratégia coerente, premeditadas ambas. Uma práxis ou etiqueta. Digamos: uma teoria e a prática teimosa logo e sempre dessa teoria. Um tempo, o lugar e a fórmula: um lar e pais e beijos e brinquedos para a infância; uma luz e amigos e namoradinhas para a adolescência; uma força e um gesto e o Amor para a idade adulta; um exemplo e uma dignidade e um silêncio para a velhice. Um tempo de liberdade para cada coisa e cada um. Ou: um tempo de coragem e desespero para lutar para conquistar essa liberdade necessária e essa cada coisa, a cada um. Talvez uma Pátria. Um amigo, ou dois, não seria demais. Inimigos, os que a nossa intransigência criasse. E filhos, muitos filhos - nossos juízes, nossa aposta no futuro.

JTD

domingo, 11 de janeiro de 2004

A política real dos casamentos

Não resisto a transportar para aqui parte da excelente crónica com que José Eduardo Agualusa dá brilho ao suplemento do Jornal Público. No espaço Fronteiras Perdidas da Pública, Agualusa fala de uma realidade que conhece e manda recados. Uma leitura atenta, tratada por quem, mesmo as situações mais canalhas, trata com elegância literária. José Eduardo Agualusa faz bem a Angola e faz falta à democracia angolana.
JTD

(...)
Li atentamente alguns dos artigos que apareceram na imprensa portuguesa criticando, ou apoiando, o primeiro-ministro Durão Barroso por ter aceite abrilhantar, em Luanda, o casamento de uma das filhas de José Eduardo dos Santos. Vários articulistas manifestaram a sua indignação pelo facto de um presidente de esquerda desperdiçar tanto dinheiro numa cerimónia de casamento, quando, em Angola, milhares de pessoas sofrem com fome. Este qualificativo, "de esquerda", há-de ter irritado Eduardo dos Santos mais do que a fome alheia. Caramba!, ele deu-se ao trabalho de organizar aquele faustoso casamento, trazendo de Lisboa todo o jet-set português (seja lá o que isso for) precisamente para se demarcar da esquerda. Erros da juventude. O primeiro-ministro Durão Barroso sabe bem do que falo. É verdade que a bandeira angolana, ainda em vigor, apesar do parlamento ter já aprovado uma outra, exibe símbolos, digamos, comunistas. Mas isso é puramente uma questão de amor à moda, é fashion - soviet chic. Também se diz que se a nova bandeira ainda não tremula ao vento, nos edifícios públicos, é porque se torna cada vez mais difícil distinguir os edifícios públicos dos privados.

Já o director do Expresso, José António Saraiva, entendeu apoiar o primeiro-ministro português. Na opinião de Saraiva o importante é que Portugal mantenha boas relações com Angola, país com o qual terá muito a lucrar num futuro próximo, e a forte amizade que liga Durão Barroso a José Eduardo dos Santos é a melhor garantia de que esse futuro de bons negócios está assegurado. O director do Expresso só lamenta que o Presidente angolano não tenha mais filhas em idade de casar - e já agora, acrescento eu, dispostas a unirem-se a cidadãos portugueses. É todo um original projecto político que aqui está desenhado. George Bush, por exemplo, teria feito melhor em casar a sua filha com um dos filhos de Saddam Hussein. Evitava-se o derramamento de sangue, bem como todos os custos políticos e económicos resultantes de uma guerra em larga escala, e assegurava-se na mesma o acesso ao petróleo iraquiano.

Se José António Saraiva lesse o Expresso saberia que existe em Luanda uma aguerrida imprensa independente. Se lesse essa imprensa saberia que o casamento da filha de José Eduardo dos Santos foi muito mal recebido pela generalidade dos angolanos. Acreditará José António Saraiva que é possível a Portugal manter boas relações com Angola, a longo prazo, desrespeitando e humilhando os angolanos?

(...)

Isto anda tudo ligado

Esta frase, tantas vezes repetida, pertence a um texto de um autor recentemente falecido. Quem o recorda é António Barreto na crónica de hoje no Público. Há coisas assim. De tanto utilizarmos uma expressão, devido à sua eficácia retórica, esquecemo-nos de quem a inventou. Geralmente desculpamo-nos com um:"como diria o poeta". Só que o poeta tem sempre nome. Neste caso o nome é Eduardo Guerra Carneiro.
JTD

reBlogue

Manter as aparências

Ontem, na SIC Notícas, Durão Barroso afirmou que tinha sido óptimo para as nossas relações com a França e com a Alamanha a posição que tomámos em relação ao seu não cumprimento do PEC. E garantiu-nos que a França não tinha ficado zangada com a nossa lealdade para com outro aliado, mais forte, durante a guerra do Iraque. E ainda achou que Portugal não tinha de estabelecer alianças preferenciais no debate europeu. Que depende de cada momento. E considerou, por fim, que Portugal não deve receber contrapartidas financeiras pela base das Lajes. Porque não somos clientes, somos amigos. De facto, devemos evitar que haja dinheiro envolvido neste tipo de relações. Há que manter as aparências, não vão os "nossos aliados" julgar que nos dedicámos à mais antiga profissão do Mundo. Se é para sermos comidos por todos ao mesmo tempo, eles que julguem que o fazemos por prazer.
Daniel Oliveira Barnabé

reBlogue

Ria-se se ler no Expresso

Como seria de prever, o advogado de Bibi não será também advogado de Saddam. A notícia, que nasceu no caderno de humor do “Público”, foi repetida no caderno do humor do Expresso (o primeiro caderno). Um grupo de advogados enganou Martins e o próprio enganou o “Expresso”. Diga-se, em abono da verdade, que são os dois fáceis de enganar. O desmentido veio no Jornal de Notícias. A coisa funciona assim: quando contarem uma piada ao Saraiva, expliquem-lhe que é no gozo. Não se esqueçam que ele leva a sério até os editoriais que escreve.
Daniel Oliveira Barnabé

sábado, 10 de janeiro de 2004

BB no seu melhor

Baptista-Bastos assina hoje no suplemento MIL FOLHAS do PÚBLICO, um belíssimo texto evocando a existência atribulada do poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro. As crónicas de BB continuam a fervilhar no melhor verbo. Aqui vai um cheirinho:

"Fui camarada de jornais e companheiro de noites do Eduardo. Viajei com ele muitas viagens pelos balcões de bares inverosímeis, e batuquei muita prosa na banca ao lado da banca onde ele tocava o harpejo da palavra. O sítio em que ele estava era sempre asseado e nítido; o que ele escrevia era sempre claro, limpo e decente. Os tempos não eram propícios à fraternidade, e a solidariedade começava a estar desempregada no coração das coisas e na acção dos homens. Creio que, ocasionalmente, o Eduardo Guerra Carneiro foi a representação dos melhores de nós: arranhados, feridos, surpreendidos, perplexos, removidos, um cenário sombrio e sujo no fio do horizonte.

Caiu a prumo. A prumo, como foi a sua vida. Ele sabia, como poucos, que não há viagens sem imprevisíveis sobressaltos. Mesmo assim, não desistiu. Afastou-se temporariamente, até que um novo leitor peça emprestado aos seus poemas o diálogo que forma a conjunção de circunstâncias."

Também Francisco José Viegas Aviz., no passado dia 3, assinala de uma forma notável a passagem de Eduardo por esta vida. Dois textos que realçam a ternura da amizade e colocam a palavra ao serviço das recordações maiores. Já a referência de José Pacheco Pereira Abrupto é para esquecer. A saudade das pessoas que apreciamos não deve ser esmorecida pelas causas da sua morte. O direito a existirmos não anula, nem por imposição dos limites de uma qualquer consciência, o direito de querermos deixar de existir. Obrigado, Eduardo. Por nos ter deixado estes poemas. E para terminar, aqui vai mais um texto de A NOIVA DAS ASTÚRIAS. JTD

Já poeta não sou se a voz calo
e nesse estado estou, que é não estar.
Já poeta não sou se a voz não ergo,
para abrir outra porta, além do espelho.
Já poeta não sou quando estou cego
e adio essas linhas, marcadas a negro.
Já poeta não sou se o tempo perco,
no novelo enredado, no vício do prego.

Por isso assim escrevo, entre sangue e ouro,
rasgando as cortinas feitas pelo medo.
Por isso assim escrevo, escravo das palavras,
deixando a corrente inundar o Outro.
Toda a arte poética não deixa de ser
fogo de artifício - para o Outro ver.

Toy Story II

Gosto da ironia. mas oxalá o meu edil, Pedro Santana Lopes, não leve a sério a sugestão de JTD e siga o exemplo dos autarcas de Setúbal. Não me imagino homenagear Tomás Alcaide ao som de Mónica Sintra ou outro qualquer praticante de gritarias inaudíveis. Bem servidos de autarcas, estes setubalenses. Gente culta e de refinado gosto musical como esta devia estar como júri dos concursos da televisão. As autarquias não podem ser poupadas a esta nojeira? BN

sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

Uma boa razão para viajar

O meu colega JTD sugere aqui um bom motivo para me deslocar ao sul. Vou-me concerteza encontrar com ele e iremos juntos a esse grande espectáculo que é o concerto de encerramento das comemorações do ano Luisa todi em Setúbal. Um bom exemplo de política cultural, o desta autarquia. Espero que a Câmara aqui de Tomar siga esse exemplo em homenagem a Fernando Lopes Graça, natural desta terra templária e cujo centenário do nascimento se comemora em Dezembro de 2006. Gostava de ver honrada a memória desse grande compositor português com actuações não só de Toy, mas também, porque não, de Ágata, Roberto Leal, Emanuel e tantos outros que nos animam com a sua arte. Para a apresentação, em Tomar, gostava mais de ver a Serenela Andrade. Não sei porquê, mas acho que quem apresenta concursos resolve melhor estas coisas. Então a cultura não é um grande jogo de sorte e azar? JJC

Toy story

Tenho que reconhecer que fui injusto no post abaixo em que chego a ser injurioso para com o cantor que é já um mito do classicismo - Toy. Em boa hora, a Câmara Municipal de Setúbal chama-me à razão ao colocar este grande vulto da arte do canto e do encanto entre os participantes no concerto de encerramento das comemorações do ano Luisa Todi - 2003. Curvo-me perante esta infinita demonstração de bom gosto e conhecimento da cultura e música clássicas. Todos os outros participantes, não conheço a maioria (ignorância minha), mas devem ser de certezinha artistas de alto gabarito. Já agora, para me redimir desta minha atitude inclassificável, vou dar uma sugestão que poderá conferir ainda mais brilho a esta iniciativa sem precedentes na cidade de Setúbal. E que tal convidar um tal Rocha, aquele das anedotas com barbas, para apresentar esta grande noite, que ficará na história da cultura setubalense? Poderá ser caro, mas é outro asseio. JTD

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

Os nacional-socialites

Pois é. Ver televisão não faz nada bem à moleirinha. E aqui neste blogue já se está a gastar muito espaço com assuntos da ex-caixa mágica, que virou caixa de lixo. Apesar de tudo, parece que já não se ouve com tanta frequência aquela máxima: "Quem não aparece na televisão não existe". Eu, pessoalmente, como raramente vejo os programas dos nacional-socialites, devo ser completamente invisível. Para falar verdade, isso é o que menos me incomoda. Mas também, quem é que quer saber da minha opinião? eu que nunca apareci nem sequer aos gritos nos telejornais. BN

Quem quer ser Toy?!

Não vi. Geralmente não vejo. Os concursos televisivos irritam-me, especialmente este "Quem quer ser milionário", onde a ignorância é exibida como espectáculo.
Mas dizem-me que uma das perguntas de uma das últimas edições era: "qual o sobrenome do cantor Toy", seguindo-se as quatro possíveis respostas. A concorrente que até parece que não tinha nada de parva, foi traída por tão idiota questão. Mas a quem é que interessa saber qual o sobrenome de Toy, se o nome artístico, que é o nome artístico, é ele para esquecer?! Ainda se fosse o nome verdadeiro de Bob Dylan, ou assim…
Estes concursos, em vez da apregoada divulgação de cultura geral (ai, estes generalistas…) são promotores de ignorãncia. Não podem ser exterminados?! JTD

terça-feira, 6 de janeiro de 2004

A2

E pronto. Já aí está A2. O novo canal de televisão.
Gostei do grafismo. Do logotipo. Gostei de ver que Ana Sousa Dias ficou. E as séries de culto. E os filmes e tudo. Tenho fé que o Magazine se safe. Só pode.
Gostei de Manuel Falcão quando fundou o BLITZ, gostei que Manuel Falcão tivesse fundado A2.
É competente, não é nada piroso e sabe escolher equipas.
Não gostei de ver a transfiguração do ministro para o seu novo visual, tipo "Sandokan". Ninguém lhe diz que aquelas barbas, aparadas e vincadas na face, já só são suportáveis em Manuel Alegre, porque enfim...
Estamos cá para ver. Oxalá se tenha encontrado a alternativa ao lixo televisivo. Pelo menos tavez se saiba com o que se pode contar, e isso já é bestial. JTD

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Do caraças

A insustentável leveza do saber foi o título que João Caraça escolheu para a conferência que proferiu no passado dia 16 de dezembro na Gulbenkian. Não faltei. Fiquei admirador do professor a partir de uma entrevista que ele deu a Ana Sousa Dias no seu admirável "Por outro lado". Aliás o professor Fernando Ramon Ribeiro, ao apresentar João Caraça referiu-se a esta entrevista como a fonte de popularidade do conferencista.
Para o arranque começou por projectar um desenho de Hobbes (o tigre da tira diária do Público), em que o bichano diz mais ou menos isto: "Para quê perder tempo a aprender, se a ignorância é instantânea". Esta frase serviu de pretexto para um desfilar de sabedoria, sempre com humor e sentido de oportunidade. Assistência, na maioria estudantes, presos a cada frase, a cada expressão, a cada projecção no telão. Terminou com uma frase - "É preciso recomeçar todos os dias". No debate, confrontado com a questão da eternidade, respondeu: "A eternidade? não conheço. Mas deve ser uma grande chatice". É assim. Há coisas para que nem os grandes pensadores encontram resposta.
Também vale a pena ler o que ele publicou. Deixo aqui parte da introdução à recente reedição do livro DO SABER AO FAZER: PORQUÊ ORGANIZAR A CIÊNCIA, Gradiva. Novembro. 2003

O fazer, neste século XXI, não se pode alhear dos caminhos percorridos pelo saber, nem dos obstáculos que se levantam à sua operacionalização. O "malfazer", aquele que actua na ocultação deliberada do saber, não pode mais ter perdão, à escala planetária em que vivemos. O malfazer é obra de malfeitores.

Mais nada.
JTD

Mau, mau Maria

O advogado de bibi, José Maria Martins, foi convidado pela Liga Árabe para integrar um ror de defensores de Saddam.
Para além de todos os defeitos conhecidos, querem ver que o homem também é pedófilo? Mas, sendo natural do Iraque pode estar inscrito no PS?
JTD

domingo, 4 de janeiro de 2004

A morte não é

Leio nos jornais do fim-de-semana que morreu o poeta Eduardo Guerra Carneiro. E que melhor forma de evocar um poeta que lembrar a sua poesia?

A morte não é a brincar; ela é
a sério. Antes tu entreténs essas
entranhas e revolves intestinos,
guerra antiga. Não é a brincar
a morte - nunca o penses. A morte
é o desconto p'ràs Finanças. Poeta:
desatina nos descontos dessa vida
e não te deixes enredar nas baixas.
Olha, amigo, que a morte está à
espreita em cruzamentos e as cruzes
já balizam o excremento: o mesmo
em que tu ficas. menos que prefiras
o incêndio das vísceras, em projecto
adiado em campas rasas.

Poema do livro A NOIVA DAS ASTÚRIAS, publicado por &etc, em Agosto de 2001
JTD

Regresso

Depois de alguns dias de pousio, voltamos às opiniões possíveis de embrulhar em blogue. Sim, porque há opiniões e atitudes que não são supostamente para embrulhar, ou seja, não são classificáveis. São para divulgar e espalhar a confusão. Não, não estou a falar apenas dos últimos desenvolvimentos do chamado "Caso Casa Pia". Também há a "retoma", o "euro 2004", os "tabus presidenciais", as eleições europeias, a fotografia oficial do primeiro-ministro (pelo fotógrafo monárquico António Homem-não há pachorra-Cardoso), e também temos os "aumentos" (dos preços, é claro), o desemprego, mas isso para agora não interessa. Não é mediático, e o que não é de mediatização fácil não vende.
Agora a sério. Não somos de vender nada a ninguém. Somos mais de meter conversa. É para isso que cá estamos e vamos continuar. Esperamos que o ano vos esteja a correr bem. Continuem a frequentar-nos. O prazer é todo nosso. JTD
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